terça-feira, 4 de agosto de 2009

INDÚSTRIA CULTURAL E CULTURA DE MASSAS

baseado em fragmentos de textos de Marilena Chauí, Walter Benjamin e T. Adorno.


A modernidade terminou uma processo que a filosofia começara dede a Grécia: o desencantamento do mundo. Isto é, a passagem do mito a razão, da magia a ciência e a lógica. Esse processo liberou as artes da função e finalidade religiosas, dando-lhes autonomia.
No entanto a partir da segunda revolução industrial no século XIX e prosseguindo no que se denomina agora sociedade pós-industrial ou pós-moderna (iniciada nos anos 1970), as artes foram submetidas a uma nova servidão: as regras do mercado capitalista e a ideologia da indústria cultural, baseada na idéia e na prática do consumo de “produtos culturais” fabricados em série. As obras de arte são mercadorias, como tudo o que existe no capitalismo.
Perdida a aura (aura na concepção de W. Benjamin), a arte não se democratizou, massificou-se para consumo rápido no mercado da moda e nos meios de comunicação de massa, transformando-se em propaganda e publicidade, sinal de status social, prestígio político e controle cultural.
Sob os efeitos da massificação da indústria e consumo culturais, as artes correm o risco de perder três de suas principais características:

* de expressivas, tornarem-se reprodutivas e repetitivas;

* de trabalho da criação, tornarem-se eventos para consumo;

* de experimentação do novo, tornarem-se consagração do consagrado pela moda e pelo
consumo.

A arte possui intrinsecamente valor de exposição ou exponibilidade, isto é, existe para ser contemplada e fruída. É essencialmente espetáculo, palavra que vem do latim e significa dado a visibilidade. No entanto, sob controle econômico e ideológico das empresas de produção artística, a arte se transformou em seu oposto: é um evento para tornar invisível a realidade e o próprio trabalho criador das obras. É algo para ser consumido e não para ser conhecido, fruído e superado por novas obras.
As obras de arte e de pensamento poderiam democratizar-se com os novos meios de comunicação, pois todos poderiam, em princípio, ter acesso a elas, conhecê-las, incorporá-las em suas vidas, criticá-las, e os artistas e pensadores poderiam superá-las em outras, novas.

A democratização da cultura tem como precondição a idéia de que os bens culturais (no sentido restrito de obras de arte e de pensamento e não no sentido antropológico amplo) são direito de todos e não privilégios de alguns. Democracia cultural significa direito de acesso e de fruição das obras culturais, direito à informação e a formação culturais, direito à produção cultural.

Ora, a indústria cultural acarreta o resultado oposto ao massificar a cultura. Por quê?
Em primeiro lugar, porque separa os bens culturais pelo seu suposto valor de mercado: há obras “caras” e “raras”, destinadas aos privilegiados que podem pagar por elas, formando uma elite cultural; e há obras “baratas” e “comuns” destinadas a massa. Assim, em vez de garantir o mesmo direito de todos à totalidade da produção cultural, a indústria cultural introduz a divisão social entre elite “culta” e massa “inculta”. O que é massa? É um agregado sem forma, sem rosto, sem identidade e sem pleno direito à cultura.
Em segundo lugar, porque cria a ilusão de que todos têm acesso aos mesmos bens culturais, cada um escolhendo livremente o que deseja, como o consumidor num supermercado. No entanto, basta darmos atenção aos horários dos programas de rádio e televisão ou ao que é vendido nas bancas de jornais e revistas para vermos que, através dos preços, as empresas de divulgação cultural já selecionaram de antemão o que cada grupo social pode e deve ouvir, ver ou ler.
No caso dos jornais e revistas, por exemplo, a qualidade do papel, a qualidade gráfica de letras e imagens, o tipo de manchete e de matéria publicada definem o consumidor e determinam o conteúdo daquilo a que terá acesso e o tipo de informação que poderá receber. Se compararmos, numa manhã, cinco ou seis jornais, perceberemos que o mesmo mundo – este no qual todos vivemos- transforma-se em cinco ou seis mundos diferentes ou mesmo opostos, pois um mesmo acontecimento recebe cinco ou seis tratamentos diversos, em função do leitor que a empresa jornalística pretende atingir.
Em terceiro lugar, porque inventa uma figura chamada “expectador médio”, “ouvinte médio” e “leitor médio”, aos quais são atribuídas certas capacidades mentais “medias”, certos conhecimentos “médios”. Que significa isso?
A industria cultural vende cultura. Para vendê-la, deve seduzir e agradar o consumidor. Para seduzi-lo e agradá-lo, não pode chocá-lo, provocá-lo, fazê-lo pensar, fazê-lo ter informações novas que o perturbem, mas deve devolver-lhe, com nova aparência, o que ele já sabe, já viu, já fez. A “média” é o censo comum cristalizado que a industria cultural devolve com cara de coisa nova.
Em quarto lugar, porque define a cultura como lazer e entretenimento, diversão e distração, de modo que tudo que nas obras de arte e de pensamento significa trabalho da sensibilidade, da imaginação, da inteligência, da reflexão e da crítica não tem interesse, não vende. Massificar é, assim, banalizar a expressão artística e intelectual. Em lugar de difundir e divulgar a cultura, despertando interesse por ela, a indústria cultural realiza a vulgarização das artes e dos conhecimentos.
Espero que este minúsculo texto possa contribuir de alguma forma para iniciarmos uma reflexão sobre nossa realidade de forma conseqüente. Não se pode desconsiderar a responsabilidade dos artistas, intelectuais, atores sociais e de todos os envolvidos de alguma forma com a cultura quando se evidencia a necessidade de aprofundarmos a democracia em nossa sociedade, entre outras formas, também via democratização da cultura, criando alternativas à lógica e domínio da indústria cultural. Na superação desse processo, que é ao mesmo tempo cultural, econômico e político, os desafios que se colocam para que a arte e a cultura sobrevivam passa pelo engajamento dos artistas, pela discussão sobre o papel que o Estado deveria e/ou poderia exercer, sobre as ações objetivas que constituíram as política culturais em nosso país, estado e município nos últimos anos e de como devemos prosseguir daqui por diante para alcançarmos a realidade que desejamos.
Andrew Mosse 31/07/09

7 comentários:

  1. A arte marginal, a margem.

    Mas como estar á margem, dentro de um mercado rotulado e carimbado,
    com convenções, melindres, e uma ditadura-capitalista que dita o
    formato comercial, como único meio de você acessar a verba pública
    destinada á chamada “Cultura do Poder” do período pós-industrial ou
    pós-moderno?

    Liberdade de expressão? Não tão livre assim, pelo menos, não com verba
    pública. Para se ter liberdade de expressão, você tem que pagar, e
    olha lá! Mas “pêra” aí? Você já não paga por isso? Quantos pagaram por
    isso, até com suas vidas? O que fazemos com essas memórias e essas
    conquistas?

    Cultura em série. Saúde em série. Educação em série... Mandato em
    série.

    Existe a cultura do mandato. Todos projetos do Poder Público, são
    voltados a um olhar egocentrista, limitando-se aos interesses
    partidários principalmente. Período de 4 anos. Projetos de curto-prazo
    para exposição de feitos, para a próxima candidatura. Quanto mais
    projetos a curto-prazo, números expressivos, e exposição destes, mas
    este projeto terá chances de acessar verbas. A que “cultura” estamos
    nos submetendo? A que cultura estamos sendo coniventes? Cultura fast
    food.

    Dificilmente você vê a aprovação de lei a longo-prazo. Estamos num
    ritmo acelerado, com obsessão de resultados. Estamos sempre tentando
    nos superar em construir arranha-céus em 6 meses, mas logo este prazo
    será superado por uma nova tecnologia que irá bater este récord, e
    estes 6 meses se tornará um passado esquecido e superado. Não existe a
    cultura do bom alicerce que permeie uma vida. Aqui não, mas se
    refletirmos um pouquinho, por exemplo, sobre a cultura milenar
    africana...

    Estes são os novos tempos, tecnologia de superação. É uma nova
    cultura. Mas ela se fecha em si só? Temos sim que olhar para esta nova
    realidade, este novo tempo, onde crianças já nascem com afinidades
    tecnológicas. Porém, precisamos o olhar da margem pra tudo isso, e
    descobrir como interagir com essa realidade sem nos perdermos em sua
    alucinação.

    Cultura de base. Cultura de bom alicerce. Cultura a longo-prazo.
    Cultura de trabalho coletivo. Cultura de valorização do outro. Cultura
    que tem um preço e não qualquer preço ou o mais baixo custo.



    A IMPORTÂNCIA DE UM BOM ALICERCE...
    Um prédio na China caiu de costas INTEIRO. Ainda estava em fase final
    de construção.

    BOM - AQUI DEVERIA TER, APENAS PARA ILUSTRAR A IMPORTÂNCIA DO BOM ALICERCE,
    ALGUMAS FOTOS DO PRÉDIO NA CHINA QUE CAIU "INTEIRO" - PORQUE ILUSTRA A IMPORTÂNCIA DO BOM ALICERCE, NÃO ADIANTA NADA FAZER UM LINDO PRÉDIO, APENAS AO QUE OS OLHOS VÊ, SEM UM ALICERCE QUE VAI SUSTENTÁ-LO EM PÉ POR UMA VIDA. MAS AQUI NÃO POSTA IMAGEM, MANDEI PRA VOCÊS POR E-MAIL e TEM
    AQUI NO ARQUIVO DO GRUPO.

    Sandra Barbosa 02.08.09

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  3. Esperamos em breve, ver engrossar as fileiras dos nossos pares, na luta pelos ideais da produção cultural, bem fundamentada e com o apôio de nossa população, da iniciativa (pública e privada), que nos permita fomentar a criação artística de nossa gente, notoriamente competente, porem ainda desmotivada.
    Viva o Levante Cultural!
    P Barros

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  7. a arte sempre se fez essencial, no entanto, o ensurdescedor movimento de jogar muito dinheiro em produções banais, entorpece os ouvidos-olhos, como que justificando a mentira de que quem mais aparece, é melhor...Alcides Neves (comentário enviado para o e-mail: culturadebarueri@gmail.com).

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